quinta-feira, abril 28, 2016

AINDA com GASSET...

...E O IMPASSE CIVILIZACIONAL

" Ao usá - los, nunca se manteve acima deles, como qualquer homem responsável deve fazer, conservando o domínio do seu funcionamento, dono assim do seu próprio destino e, portanto, do porvir histórico. Não vale a desculpa de que não se podia ver do interior desse século o quie lhe faltava, porque as individualidades verdadeiramente superiores daquela idade - uns quantos homens de esquina, meditabundos - o previram com toda a clareza e o declararam com todo o rigor.

Um raciocínio simplíssimo levava a essa antecipação. O instaurador da democracia não fora educado em democracia mas no " antigo regime " ou no resíduo ainda persistente da sua atmosfera ética. O iniciador do especialismo não era, por seu lado, especialista, antes possuía ainda a enciclopédia da sua ciência. A indústria triunfante não se alimentava do ar público por ela criado, antes se beneficiava de quanto na sociedade ainda sobrevivia do abiente pré - industrial. O século XIX, pois, juntava as vantagens dos novos princípios às sobrevivências favoráveis do anterior. Ele não era filho de si mesmo. O que de inovação radical havia na sua obra - a nova organização da vida - não reactuava ainda na sua vida. Mas era evidente que se evaporavam, geração após geração, os restos do século XVIII e ficavam em seco, isolados, os novos princípios. O Homem nascido para a vigência plena destes, e só destes, era o filho da Revolução, o novíssimo Adão.
Porque não interrogar - se automáticamente se esse novo tipo de Homem tinha condições para continuar o plano histórico que o século XIX inicia? Porque não interrogar - se se o educado na pura democracia será capaz de ser democrata carecendo de ética complementar? Se o especialista nato poderia ser na verdade « homem de ciência » ou antes perderia todo o contacto com as raízes mesmas do saber? Enfim, se o industrialismo abandonado à sua própria gravitação não se anularia - por causas múltiplas - a si mesmo?

O século XIX não quis responder a estas perguntas e por isso as respostas andam agora na reua caminhando pelos seus próprios pés. São o problema gigantesco, ímpar na História, que aquela centúria tão gloriosa nos legou. O filho da democracia liberal é de intenção anti - liberal e, com rigor, anti - democrata ( sendo ao mesmo tempo uma coisa e outra ). O filho do especialismo científico não sente entusiasmo pela ciência. O industrialismo filial daquele triunfante começa a perder a própria cabeça. E tudo isto é - o o homem - novo galantemente, cínicamente, futilmente. Porque não mostra sequer a pretensão de ter superado todas essas coisas num novo sistema de normas vitais mais acutilantes e exactas. Parece disposto a viver em seco, sem normas, sem projectos de nenhuma classe ".

Este poderoso e lúcido lamento do filósofo do " vitalismo ", apesar de datado, em circunstâncias penosas para o Ocidente, então, remete - nos a um eterno retorno historicista que o dealbar do século XXI ressoa em cristalina constatação. Nunca como agora o planeta se viu servido de tão extraordinários instrumentos, que marcam uma evolução a que a Razão obriga. Só o seu portador - HOMEM - permanece irredutível às mudanças que as suas descobertas, em todos os campos do Conhecimento, o urgiriam.
Simplesmente aterradora a visão de um futuro em impassante GESTÃO BU(R)ROCRÁTICA a que já nem o Pensamento escapa...

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